Na madrugada de 25 de outubro, a polícia atravessou o cordão humano na Praça D. João I, no Porto. Em cerca de dez a quinze minutos, chegou às tendas. Entraram as equipas de limpeza. No Rossio, em Lisboa, as tendas também foram retiradas. Ao amanhecer, as praças tinham recuperado o seu aspeto habitual.
Em 2025, 18 284 agregados esperavam por habitação pública nos dez municípios mais populosos de Portugal. Nesse ano, foram atribuídas menos de 1800 casas. Àquele ritmo, e se não entrasse mais ninguém na lista, seriam precisos mais de dez anos para a escoar. É uma conta aproximada, não o prazo de espera de cada família.
Desmontar uma tenda e disponibilizar uma casa são tarefas incomparáveis. Construir e reabilitar exige terrenos, trabalhadores, dinheiro e tempo. Mas os dois ritmos deixam uma pergunta difícil de afastar: porque é que conseguimos agir com tanta urgência quando a crise ocupa uma praça, mas aceitamos tão facilmente a espera quando ela ocupa a vida de alguém?
O que cabe atrás de uma porta
Cabe um adulto que trabalha e continua a dormir no quarto onde estudava para os exames.
Cabe um casal com dois salários que adia a mudança para uma casa onde caiba mais uma criança.
Cabe uma mãe divorciada à procura de um quarto onde os filhos possam dormir metade da semana.
Cabe o pai à procura de outra casa, perto o suficiente para continuar presente.
Cabe uma pessoa reformada a fazer contas à renda antes de ir à farmácia.
Cabe a mesma pessoa a olhar para o bairro onde vive há décadas e a perguntar-se para onde irá se perder a casa.
Cabe tudo isto atrás de uma porta. Por isso, podemos passar à frente sem dar por nada.
Estas pessoas não têm todas a mesma história. Umas procuram a primeira casa; outras tentam conservar aquela onde passaram a vida. Algumas querem comprar, outras só precisam de um contrato de arrendamento que consigam pagar. O que as aproxima é a distância entre o rendimento disponível e a habitação de que precisam.
Em 2025, os jovens em Portugal saíram de casa dos pais, em média, aos 28,8 anos; na União Europeia, aos 26,3. O número não explica a decisão de cada pessoa. Ajuda, porém, a perceber por que razão tantas famílias continuam a oferecer durante anos uma solução que os filhos não encontram fora de casa.
Essa solução também tem um custo, mesmo quando ninguém paga renda aos pais. Os pais cedem espaço e prolongam uma responsabilidade que julgavam ter terminado. O filho adia a independência. Todos se adaptam. E é precisamente essa adaptação que torna o problema tão fácil de tolerar: enquanto a família o conseguir absorver, parece menos urgente.
Para uma pessoa idosa, a margem para se adaptar pode ser ainda menor. A Renascença documentou casos de idosos a viver em quartos arrendados, e responsáveis autárquicos alertaram para pedidos de ajuda, incluindo de idosos confrontados com despejos. Há contratos antigos com proteções importantes; perder a casa não é o destino de todos os inquilinos mais velhos. Mas quando isso acontece, ou quando uma renda deixa de ser suportável, uma pessoa com uma pensão baixa encontra um mercado onde o valor das casas mudou muito mais depressa do que a sua capacidade de pagar.
Um quarto em casa dos pais. Dois salários consumidos por uma renda. Duas casas necessárias depois de um divórcio. Uma pensão que não chega para recomeçar noutro sítio. Nada disto impede alguém de atravessar uma praça.
As pessoas ajustam-se. Chamamos-lhes resilientes. Dizemos-lhes que têm de aguentar mais um pouco. Mas quanto tempo é “mais um pouco”?
A tenda que não cabia em casa
Uma tenda não oferece a discrição das dificuldades vividas dentro de portas. Ocupa espaço comum. Obriga-nos a olhar.
A PSP afirmou que os manifestantes mantiveram estruturas sem autorização depois de repetidas ordens para as retirar e justificou a intervenção com a necessidade de repor o uso regular das praças. No balanço divulgado na manhã de 25 de outubro, comunicou 31 detenções por desobediência, 11 feridos, três deles polícias, e 171 tendas removidas. Os organizadores apontaram um número superior de manifestantes feridos.
A intervenção anterior no Porto, a 15 de outubro, deu origem a um processo administrativo da Inspeção-Geral da Administração Interna e a um inquérito do Ministério Público, sujeito a segredo de justiça. O movimento denunciou dezenas de feridos. A PSP confirmou feridos entre os manifestantes e um agente ferido, afirmando que alguns participantes resistiram à atuação policial. As investigações estão em curso; a sua abertura não estabelece responsabilidades.
Podes considerar que as tendas tinham de sair. Podes até defender que a polícia cumpriu a sua função. Essas posições merecem ser discutidas pelos seus próprios motivos. Mas não respondem à pergunta que as tendas deixaram na praça: o que levou tantas pessoas a sentir que só assim seriam ouvidas?
O que compra o teu sacrifício?
No dia 22 de outubro, Benjamim Pereira, presidente do IHRU, questionou se a sociedade atual estaria disponível para o nível de sacrifício feito por gerações anteriores para ter casa. Recordou os avós que emigraram e o pai que passou vinte anos no estrangeiro.
A palavra sacrifício, porém, merece uma discussão maior do que uma declaração. Aos jovens dizemos para ficar em casa dos pais e poupar. Aos casais, para procurar mais longe. À pessoa divorciada, para aceitar menos espaço. Ao reformado, para se adaptar a outra zona. A cada um damos um conselho que pode fazer sentido isoladamente. Juntos, os conselhos começam a soar a uma ordem: aguentem.
As gerações anteriores também fizeram sacrifícios enormes. Muitas viveram em más condições, contraíram dívidas longas ou emigraram. Não lhes devemos inventar uma vida fácil. Mas o esforço passado não dispensa uma pergunta sobre o presente: que possibilidade real de ter ou conservar uma casa oferece hoje o sacrifício que continuamos a exigir?
No segundo trimestre de 2026, os preços das casas em Portugal subiram 16,5% face ao mesmo período do ano anterior, a maior subida da União Europeia, cuja média foi de 4,7%. A OCDE mostra que, desde 2013, os preços das casas têm crescido mais depressa do que os rendimentos dos portugueses.
Poupar ajuda. Para algumas pessoas, fará a diferença. Mas há quem ganhe demasiado para ter acesso a habitação social e demasiado pouco para conseguir uma casa adequada no mercado. E há também aquelas pessoas que trabalham, fazem contas e continuam sem uma opção que consigam sustentar.
Quando os pais oferecem casa aos filhos adultos, quando dois pais separados não conseguem viver perto dos filhos, quando uma pessoa reformada receia perder o bairro onde passou a vida, estamos a ver custos que não aparecem no preço anunciado de um apartamento. Alguém os paga na mesma.
Não dá mais para chamar a isto falta de esforço
A OCDE descreve uma crise com várias partes: construção que responde lentamente à procura, obstáculos no planeamento e nas licenças, edifícios que precisam de obras, poucas opções no arrendamento e um parque de habitação social reduzido. Em 2022, Portugal gastou cerca de 0,1% do PIB em habitação social.
Há também casas pouco utilizadas. No recenseamento de 2021, cerca de 12% dos alojamentos estavam vagos e outros 19% eram usados como segunda habitação ou casa de férias. Isto exige atenção à forma como usamos as casas que existem. Não significa que todas estejam onde fazem falta ou prontas a receber alguém amanhã. A localização, o estado do imóvel e o custo de o recuperar contam.
Nenhuma destas dificuldades se resolve num dia. Construir demora, reabilitar custa dinheiro e nem todas as casas disponíveis estão onde fazem falta. Mas a complexidade do problema não transforma os seus efeitos numa responsabilidade individual.
Podemos pedir às pessoas que façam contas cuidadosas. Não podemos continuar a chamar falta de esforço ao resultado dessas contas quando trabalhar, poupar e abdicar de espaço ou de tempo já não chega, para muitas delas, para ter ou conservar uma casa.
E a praça ficou vazia…
Ao amanhecer, as tendas já não estavam no Rossio nem na Praça D. João I. O adulto voltou ao quarto de infância. O casal voltou às contas. Os pais separados continuaram à procura de duas casas onde os filhos pudessem sentir-se em casa. A pessoa reformada continuou a perguntar-se para onde iria se tivesse de sair da sua.
Podes achar que as tendas tinham de ser retiradas. Podes defender a atuação da polícia. Podes desconfiar das intenções de alguns grupos envolvidos no protesto. Não precisas de mudar de opinião sobre isso para reconhecer o que estava diante de ti: há pessoas que trabalham, criam filhos, envelhecem e fazem tudo o que lhes foi pedido, mas já não conseguem ter, ou manter, uma casa adequada à vida que levam.
Talvez tenhas casa e dinheiro para a pagar. Ainda bem. Mas esta crise não fica à porta da tua casa. Entra quando o teu filho adulto não consegue sair dela. Quando alguém de quem gostas permanece numa relação porque não consegue pagar uma renda sozinho. Quando um colega passa horas em viagem todos os dias e quase não vê os filhos. Quando uma vizinha que conheces há décadas tem de deixar o bairro. Entra quando as pessoas de quem depende a vida de um lugar deixam de conseguir viver nele.
É isto que me custa aceitar na palavra sacrifício. Pedimo-lo a quem quer começar a vida e a quem já passou a vida inteira a trabalhar. Aos primeiros dizemos que esperem. Aos segundos, que se adaptem. E, enquanto cada família conseguir absorver mais um custo, continuamos a chamar normal ao que devia indignar-nos.
Uma praça livre é um assunto de todos. Uma sociedade onde tanta gente não consegue construir ou conservar uma casa também é. Podemos discordar de uma manifestação sem ficar indiferentes às pessoas que se manifestaram. As tendas desapareceram em minutos. A crise continua nas casas dos nossos filhos, dos nossos pais, dos nossos amigos e dos nossos vizinhos. Já não dá para lhes pedir que aguentem sozinhos.
Primeiro ficaram sem casa os pobres,
e eu não disse nada,
porque eu não era pobre
Depois ficaram sem casa os jovens,
e eu não disse nada,
porque eu tinha contrato
Depois ficaram sem casa os precários,
e eu não disse nada,
porque eu já tinha casa
Depois ficaram sem casa os professores, os enfermeiros, os polícias, os licenciados, os engenheiros, a classe média,
e eu não disse nada,
porque eu já era proprietário
Depois chegou a minha vez, e já não havia ninguém para dizer nada
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Até uma próxima vez - Guilherme
PS: Este artigo foi escrito com apoio de inteligência artificial. A responsabilidade pelo texto final é minha.
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